Livro «As 10 Questões da Crise» de João César das Neves

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Na apresentação deste livro, João César das Neves começa logo com uma frase bastante forte mas que em nada surpreende: «Portugal está em crise grave». No entanto, esta chamada de atenção não torna esta publicação numa ferramenta de acusação ou ainda num aviso em tom paternalista. É sim uma tentativa mais de explicar aos leigos os conceitos básicos sobre a crise económica que agora se atravessa.

A grande maioria das pessoas desconhece como, num tão curto espaço de tempo, se passou a falar de austeridade em vez de investimento, e de «apertar o cinto» em vez de «aumentar ordenados e pensões» por exemplo. O mergulho na crise foi repentino e apanhou muitos desprevenidos.

Uma obra como esta tem portanto o seu lugar. O autor explana de forma clara, rápida e sintética o que são as crises, porque surgem, como caiu o país em mais uma recessão económica e como poderá sair dela.



O autor apresenta as suas teses de como, apesar destes períodos de sofrimento, estamos melhor no nível de qualidade de vida. Faz a relação por exemplo, de como era o país nos anos 50 ou mesmo no século XIX, de como estavam os nossos níveis de escolaridade, as infra-estruturas no país e porque, ao contrário do pensamento geral, nos devemos considerar um país rico, avançado, inovador e com iniciativa.

Defende ainda porque devemos deixar de lado as ideias de que somos um país que não avança, que tem nenhuma ou pouca industria, que somos gente retrógrada, entre outras crenças.

A quem procura compreender a fundo as causas e consequências desta crise, fica o recado que deverá procurar por outras publicações como por exemplo o livro «Perceber a Crise Para Encontrar o Caminho» de Vítor Bento (Editora bnomics, 2010), que será analisado posteriormente aqui no Onde e Como Investir.


As 10 questões da Crise:

Esta obra está organizada de forma a que as respostas às 10 questões culminem na pergunta que mais portugueses fazem neste momento: como é que podemos sair desta crise? Assim, e sem prejuízo do que o autor defende, transcorro aqui de forma sucinta e até básica alguns dos seus argumentos sobre esta e restantes perguntas:


1. Porque há crises?

Porque são normais. Em cada sociedade organizada há sempre momentos de menor fulgor, quer naquelas que são consideradas mais avançadas quer nas de menor dimensão. Uma organização precisa de uma renovação periódica para que se possa manter no topo, de cortar alguma gordura e procurar novas soluções para novos problemas.

Ora, numa organização de qualquer índole, num governo ou num país, isso não será diferente, aplica-se a mesma regra. As crises económicas não nasceram ontem, não são todas iguais e irão continuar a acontecer. Fazem parte da natureza humana. Segundo César das Neves, as crises económicas são, paradoxalmente, um sinal de que o sistema capitalista funciona.

Tal como existe a doença, a violência, a traição e o crime, existem as crises. Aprendemos a viver e a minorar os seus efeitos mas nunca seremos capazes de as evitar por completo.


2. A dívida é uma coisa má?

A dívida pode não ser uma coisa má. Não será se, desse negócio houver um ganho bastante superior àquilo que se paga. O problema está quando isto não se verifica. Os países tendem a ver as suas balanças comerciais entrarem no negativo e o nível de vida descer.

Há sempre uma condenação moral da actividade financeira quando há uma crise ou quando se verifica um uso menos próprio das ferramentas financeiras, especialmente se estes forem vistos sob uma perspectiva religiosa, cultural e social. Quando há sofrimento tudo o que envolve dinheiro torna-se perverso.

No entanto, a dívida e o crédito são vistos de forma ambígua. Por um lado estão todas as vantagens que podemos tirar do uso destas ferramentas. Por outro, os riscos e incertezas que corre quem empresta dinheiro ou de quem o pede emprestado.


3. O sistema capitalista é perverso?

Atrás de uma crise está sempre um regime. Mas nem sempre este é de natureza capitalista. Desta forma, não se pode dizer que os sistemas que se baseiam na troca de capitais são os grandes culpados.

O autor admite que o próprio nome «capitalismo» é depreciativo mas é o sistema mais abrangente e democrático da actualidade, e tudo o que somos e temos do ponto de vista económico vem dele, mesmo que o detestemos. E é nele que baseamos as nossas expectativas produtivas no futuro.

«Os notáveis avanços na saúde e comunicação, conforto e arte, cultura e liberdade, que tantos vêem como direitos, são inseparáveis do capitalismo. (...) Acima de tudo são incríveis os ganhos na redução da pobreza mundial.»

No entanto, o capitalismo está longe de ser um sistema perfeito. Tem tudo a ver com o que as pessoas façam dele. E isso nem sempre significa que sejam coisas boas, mas poucos estariam dispostos a abdicar dele e a voltar atrás.


4. O que é uma crise financeira?

Uma crise financeira dá-se quando há uma quebra de confiança nas instituições que criam e geram o dinheiro. A divisa mais forte e o banco mais sólido desaparecem em minutos se deixarmos de acreditar neles, conclui o autor. As crises nascem de erros, imprudências e tolices. De tempos a tempos estas surgem e ajudam a limpar o terreno e a perda de credibilidade é a verdadeira razão para que surjam.

Muitos perguntam-se porque não se previu esta crise mas a resposta é amarga: previu-se sim e muitas vezes. Esta crise foi antecipada por alguns mas as suas opiniões ficaram abafadas no meio da euforia. O sistema não premeia quem for ponderado nestas alturas já que está toda a gente a fazer dinheiro menos eles.


5. Que aconteceu na crise global de 2008-2009?

João César das Neves surpreende o leitor ao afirmar que nesta crise não aconteceu nada de concreto e identificável que tenha deflagrado a derrocada que começou nos Estados Unidos e se espalhou por todo o mundo. Num colapso financeiro, o mais importante nunca é o detonador, mas o clima especulativo que depois incendeia todo o sistema.

«O que se passava era que se vivia num ambiente de euforia e crescimento que soava a oco. Assim, no meio dos ganhos, muita gente começava a dizer que a sorte não podia durar sempre. Ora, quando o sistema espera a queda, qualquer pequeno abalo tem consequências devastadoras.»

«Todavia, a crise de 2008 é conhecida como a crise global. (...) Para muitos, prenunciou mesmo uma mudança de sistema económico e o fim do capitalismo como o conhecíamos. Mas, pelo contrário, ela própria foi uma prova evidente do sucesso do capitalismo. Só os avanços realizados nos últimos anos na abertura dos mercados permitiram que as perturbações atingissem tal dimensão. Um grande incêndio nunca se dá num deserto, mas numa floresta luxuriante.»


6. Que terapêutica para as crises?

Em momentos conturbados os bancos são sempre os primeiros a serem intervencionados já que são eles que lidam com a moeda. Ao deixa-los cair, a moeda desaparece e isso iria provocar o caos e um agudizar da crise. Assim, procede-se a nacionalizações de alguns bancos, recapitaliza-se outros, e anunciam-se outras medidas económicas e políticas tal como a emissão de dívida, cujo principal objectivo é acalmar o nervosismo dos investidores.


7. Portugal já faliu alguma vez?

Portugal não está falido. Só estará quando e se não conseguir honrar os seus compromissos com os credores. No entanto, o país já faliu sete vezes face a credores estrangeiros mas em alturas bem distantes como por exemplo 1560, 1605 e várias vezes no século XIX. Os tempos eram diferentes. As razões, os governos e as consequências foram outras bem piores que não as actuais.


8. Portugal vai de mal a pior?

Não. Claramente não. Há um sentimento generalizado que Portugal está a entrar em decadência mas se alargarmos o nosso espectro temporal e não olharmos apenas para os últimos 4 a 5 anos, iremos notar uma curva ascendente na grande maioria dos nossos indicadores de riqueza.

A literacia aumentou, a mortalidade infantil desceu consideravelmente, a qualidade de vida subiu, o nosso PIB é sete vezes superior ao que tínhamos nos anos 50, temos mais industria, os cuidados médicos melhoraram muito, o número de veículos, maquinaria, etc. também.

Uma análise aos gráficos de dados fornecidos neste livro dar-nos-á uma leitura diferente. Portugal já cresceu mais que agora mas não pode nunca ser considerado um país pobre mas sim rico.


9. Como é que caímos na crise?

A principal razão para que estivéssemos caído neste problema foi a atitude de facilidade e despesismo que começou em meados da década de noventa. A balança externa agravou-se de forma constante a partir desta altura, vindo de uma percentagem de –0,1% do PIB em 1995 até um valor de –11,4% em 2008. Por conseguinte, também a dívida externa total descarrilou para um valor próximo aos 240% em 2010.

A juntar a estes factores está ainda a entrada no Euro, que decorreu neste período e deu-nos a sensação de segurança, com taxas de juro próximas a países como a Alemanha, a diminuição dos dinheiros enviados pelos nosso emigrantes, os imigrantes que passamos a receber (que por sua vez passaram a enviar divisa para o estrangeiro), a sucessão de erros cometidos após o início da crise em 2008 e a bola de neve criada pelos juros da nossa dívida.


10. Como é que saímos desta?

No último capítulo João César das Neves aponta alguns caminhos para que se consiga sair desta recessão. Para surpresa minha, as suas soluções são aquelas que se ouvem todos os dias, em todo o lado: deixar de nos queixarmos e deitar mãos à obra, deixar as acusações e não nos preocuparmos em encontrar os culpados enquanto houver trabalho a fazer, deixar as fantasias e enfrentar o problema de frente sem perder a cabeça.

Todos os sectores sociais, o Parlamento e os ministérios, as empresas, tribunais, hospitais e escolas têm de abandonar o facilitismo e abusos recentes e têm de adoptar mais seriedade no seu funcionamento.

É necessário enfrentar a crise. É hora de trabalhar mais e melhor, poupar mais e investir mais e melhor são as saídas que este apresenta para que saiamos dela. E sempre apoiado de uma boa dose de criatividade, imaginação, improvisação e desenrascanço mas também de solidariedade.



Livro, Capa, D. Quixote, Economia, Finanças, CriseSe é daquelas pessoas que lê notícias e vê o telejornal diariamente deve estar, das duas uma, ou aterrado e a julgar que está bem tramado, ou então bloqueado e sem conseguir pensar no que deve fazer para sair desta. Se pensa que o país vai falir e que vamos todos empobrecer, que as empresas vão desaparecer, relaxe. A verdade não é bem como a comunicação social nos quer vender.

É certo que é preciso não ignorar o que se passa à volta e tomar decisões para combater a situação, mas deve concentrar-se no essencial. Uma cabeça pre-ocupada não consegue ver mais do que dois palmos à frente do nariz. E ler um livro como este, que desmitifica alguns conceitos que se vão criando por entre a sociedade portuguesa, pode ser um bom começo.

Tentar colocar num simples artigo tudo aquilo que João César das Neves argumenta sobre a crise é puro engano. A leitura deste livro revelará muito mais que aquilo que aqui foi escrito.


Título: As 10 Questões da Crise
Autor: João César das Neves
Áreas: Economia, Finanças
Editora: Leya – Dom Quixote
Ano de edição: 2011, 2ª Edição
ISBN: 978-972-20-4663-3
Idioma: Português
Número de páginas: 239
Classificação:

Victor Sousa Victor Sousa é um aprendiz de investidor que procura atingir
a sua liberdade financeira através de investimentos em imóveis,
negócios e bolsa. Com o site Onde e Como Investir pretende ajudar outras pessoas a conseguir alcançar o mesmo objectivo.

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