Nas últimas semanas, os media nacionais e em especial os jornais de economia têm dado destaque a algo que diz pouco à grande maioria das pessoas, mas que todo o investidor deve ter em atenção: são as chamadas «Obrigações».
Os casos de emissões de obrigações do Estado, de empresas como a EDP, a Semapa e recentemente a Zon, a Brisa e ainda de clubes de futebol, têm dado especial destaque a este tipo de investimento junto do público em geral.
O que são então as obrigações e porque se tem falado tanto delas? Leia este artigo e aprenda como funcionam, como subscrever, que cuidados deve ter, quanto poderá ganhar e ainda se este é um investimento adaptado ao seu perfil.
O que são obrigações?
A emissão de obrigações são uma das ferramentas que as empresas, instituições e Estados nacionais ou estrangeiros, usam como forma de contrair empréstimos junto do público em geral.
Basicamente, investir em obrigações, é mais um modo que as pessoas têm de emprestar dinheiro a estas organizações e serem pagas por isso. Funcionam como os depósitos a prazo, que na prática são empréstimos seus ao seu banco, mas com condições um pouco diferentes.
A partir do momento em que investe em obrigações, torna-se um credor da instituição que as emitiu.
Que tipos de obrigações existem?
Há dois grandes tipos de obrigações: as lançadas pelos Estados nacionais (Obrigações de Tesouro) e as das empresas.
As obrigações do Estado (government bonds em inglês) são os títulos emitidos por governos nacionais, entidades públicas e outros organismos públicos como por exemplo as câmaras municipais.
As obrigações das empresas (corporate bonds) funcionam da mesma forma mas são títulos emitidos por empresas privadas ou públicas.
Para que servem?
As emissões obrigacionistas são uma ferramenta financeira que estas organizações usam para se financiarem junto do público em geral, ou seja, em vez de valerem-se dos bancos, empresas, outras instituições ou ainda grandes investidores, recorrem aos pequenos investidores.
Existem algumas outras razões pelas quais esta via é adoptada e as mais comuns são: o financiamento das suas actividade actuais, dos seus investimentos futuros e o poder prolongar o período de outra dívida anteriormente emitida.
A opção de emissão de obrigações por parte das empresas deve-se à dificuldade actual que estas têm no acesso ao crédito junto dos bancos, que poderão estar a praticar taxas de juro superiores, e à necessidadede estas se manterem competitivas e agressivas nas propostas que apresentam aos seus clientes.
Há uma contracção da economia nacional, um clima de crise e um abaixamento do poder de compra que não ajuda à circulação dos capitais. No caso das Obrigações de Tesouro estas estão na origem das dívidas públicas nacionais e é por isso que um Estado com poucas verbas também recorra a este método de financiamento.
Pergunta parva:
Mas... se estas empresas ganham muito dinheiro e apresentam sempre lucros de milhões, porque estão sempre endividadas e se vêem obrigadas a recorrer a este tipo de soluções para se financiarem?
R: Porque é sempre preferível usar o dinheiro dos outros para fazer o nosso próprio dinheiro, porque o recurso ao crédito e à dívida é a base da economia, porque alavancagem é uma coisa formidável, porque a investigação e o desenvolvimento de novos produtos pode ser muito dispendiosa, porque a guerra constante entre empresas é muito cara, porque é necessário estar constantemente a apreguar que somos os melhores e os gastos em publicidade são sempre elevados, porque quem não o fizer e optar por um crescimento sustentável pode perder optimas oportunidades de crescimento. E por outras razões.
Como funcionam as obrigações?
Em termos concretos, as empresas ou o Estado anunciam a sua intenção de emitir obrigações em seu nome e colocam-nas a subscrição através de um ou mais bancos.
Existe um período em que as pessoas podem dirigir-se aos bancos seleccionados e dar uma ordem de subscrição de determinada quantidade de obrigações. Cada obrigação tem um valor específico que pode ser por exemplo 1000€. Assim, se uma pessoa quiser investir 10.000€, subscreverá 10 obrigações.
Se houver um maior número de pedidos de subscrição em relação à oferta lançada é feito um rateio que irá definir qual a quantidade real de obrigações que cada subscritor terá direito.
Após este processo, o seu banco associará as obrigações à sua conta e cuidará de todos os procedimentos necessários. Isso pode implicar o pagamento de comissões de compra e venda, de guarda de títulos e/ou outras despesas associadas.
A partir desse momento, só lhe resta esperar que a empresa ou Estado faça um bom trabalho e que comece a pagar os juros a que tem direito nas datas acordadas. A este momento chama-se de «pagamento de cupão».
Curiosidade: antes de tudo ser tratado por via digital, as obrigações eram emitidas em papel. Cada folha tinha uns cupões destacáveis que nas datas de pagamento de juros eram removidos por quem as possuia e trocados por dinheiro. Daí a origem deste nome.
Se a taxa de juro for fixa, receberá de tempos a tempos o pagamento dos seus juros baseados num cupão de valor constante. Se for variável, este valor irá oscilar e terá como referência um indexante pre-selecionado que pode ser por exemplo, a Euribor. O período de pagamento destes juros será indicado aquando do anúncio da emissão e poderá ser anual, semestral ou outro.
Um caso especial são as chamadas obrigações de «cupão zero» onde não receberá um pagamento periódico dos seus juros mas terá um desconto no valor de aquisição de cada papel.
Terá de guardar as suas obrigações, por exemplo, durante três, quatro ou cinco anos até que o período passe. No final, e se as coisas correrem bem, será devolvido por inteiro o valor que investiu inicialmente. Mas aqui, cada caso é diferente e por isso aconselha-se a leitura extensiva de todos os pontos relativos a cada oferta.
Outros aspectos: há obrigações que são chamadas de«convertíveis». Neste caso, terá uma opção de, em determinada altura, converter as mesmas em acções da própria empresa.
O mercado nacional de obrigações é muito pequeno e é normal que a maioria das propostas lançadas não sejam negociadas em praça publica. Sendo assim o valor da maioria das obrigações poderá não ser sujeito a oscilações mas há excepções.
Quais são os custos associados?
Como vimos, investir em obrigações tem os seus riscos mas os cuidados a ter num investimento deste tipo de activo não acabam aqui. Há outros custos associados que poderão fazer baixar ainda mais os seus ganhos.
Quando se decidir acerca de uma emissão específica informe-se junto do banco e da instituição emissora qual será a taxa de juro efectiva descontados todos os custos, de quais são os custos de entrada, comissões e quanto irá pagar na totalidade.
Para ter uma ideia, eis alguns desses encargos: comissão de guarda de títulos, comissão de subscrição, de compra e venda, comissão sobre rendimentos, comissão de resgate, comissão de reembolso (quando as obrigações chegam ao seu vencimento) e outras como por exemplo comissão de gestão. No entanto, nem todas lhe serão cobradas.
Aproveite e faça todas as perguntas de que se lembrar: qual é o período de subscrição, como se irá desenrolar o processo, o que acontecerá se houver problemas, etc. Pior do que não saber, é não perguntar.
Às vezes, pode tornar-se pouco compensador investir já que há uma redução real na taxa oferecida. Esta à partida é aliciante, mas devido a todas as comissões e pagamentos inerentes torna-se pouco atractiva.
Outra opção é não investir pouco. Há há despesas que serão diluídas caso aumente a sua participação. Por exemplo, há comissões cujo valor será igual quer tenha 1 obrigação ou 20.
A juntar a isto terá a taxa associada de 25% de retenção na fonte. Assim, todos os rendimentos gerados pelas obrigações verão o seu valor reduzido nessa percentagem.
O risco nas obrigações.
Há sempre riscos associados a cada tipo de investimento, mas o mais importante é conhecê-los e saber como lidar com eles.
No caso das obrigações não é diferente. O maior é não ser pago pela entidade que as emitiu. Regra geral, as do Estado têm um grau de segurança superior às das empresas mas isso nem sempre se verifica. Um caso bem recente e que tem dado que falar é o da Grécia.
Se um país ou uma empresa falir, será complicado receber de volta o valor do seu investimento. A história recente não tem feito grandes vilões a este nível mas é preciso ter alguma prudência. Uma instituição que se endivida para poder pagar as suas contas e desenvolver a sua actividade, pode significar uma empresa com saúde financeira longe dos 100%.
Será um pouco como uma pessoa que usa os seus cartões de crédito para pagar outros. Cria assim um risco maior caso não consiga pagar a conta de um ou mais cartões e poderá entrar numa espiral de juros até a coisa rebentar forte e feio.
Não há garantia que as empresas irão ter sucesso nos seus negócios mas também é por isso que as taxas são mais altas que noutros investimentos de menor risco. Uma taxa de juro elevada pode, no entanto, significar mais riscos associados. O que tem de fazer é conhecer bem a quem empresta o seu dinheiro e saber se confia na capacidade deste usar correctamente os seus capitais e fazê-lo ganhar ainda mais.
Outros cuidados a ter:
Quando decidir investir em obrigações, visite sempre o banco, consulte o seu gerente de conta ou ainda o seu gestor financeiro se otiver. Dê uma vista de olhos por diversos sites na internet, jornais e programas de televisão sobre economia e recolha depoimentos e ideias diferentes. Tente sempre perceber quais são os interesses da pessoa que está por detrás das opiniões.
Quando se escolhe as obrigações como investimento é necessário ter sempre algumas ideias chave em mente: qual é o valor da taxa de juro associada, se é de tipo fixa ou variável e ainda quem é o emitente.
Conhecer a empresa ou Estado que está por detrás, saber como estão as suas finanças, que tipo de oportunidades existem para a mesma e que perspectivas de crescimento estão subjacentes são primeiros passos para osucesso.
Uma regra básica dos investimentos é não investir naquilo que não conhece. Se não gosta da empresa, da sua actividade ou da sua gestão, é melhor optar por deslocar o seu dinheito noutro sentido.
Quando vou receber o meu dinheiro?
Há duas alturas onde verá o dinheiro a entrar na sua conta: aquando do pagamento de juros e aquando do fim do período de validade de cada obrigação, ou seja, quando esta atingir a maturidade.
Na altura do reembolso é expectável que o preço que pagou por cada obrigação seja aquele que vai receber. No entanto, isto nem sempre se verifica. Há obrigações que podem ser negociadas em mercado aberto e o seu valor oscilar. Pode ganhar dinheiro se vender por um preço superior ao que comprou ou o inverso.
Caso prático: as obrigações da Zon.
Há várias empresas a lançar as suas obrigações e outras com essa perspectiva. Entre elas estão a Brisa, o Banif, a Portugal Telecom e a REN. Neste artigo apenas será exposto o último caso conhecido e cujo período de subscrição acabou recentemente: o da Zon.
Em traços gerais, as condições deste lançamento são: obrigações a uma taxa anual nominal bruta fixa (TANB) de 6,85%, válidas por um período de três anos (2012 a 2015), com pagamento de juros a cada seis meses e com ordens de subscrição a partir de e em múltiplos de 1000 euros. Para conhecer em detalhe esta oferta, consulte o site da Zon.
Procurando saber mais informação além daquela que estava disponível neste site e nos prospectos oficiais, dirigi-me a uma agência de um dos bancos que fazem a colocação destas obrigações junto dos particulares e pedi uma simulação. Seguem-se alguns exemplos:
Valores brutos:
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Valores líquidos:
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19-06-2012
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5.000,00€
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5.025,00€
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19-12-2012
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171,25€
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125,01€
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19-06-2013
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171,25€
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125,01€
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19-12-2013
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171,25€
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125,01€
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19-06-2014
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171,25€
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125,01€
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19-12-2014
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171,25€
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125,01€
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19-06-2015
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5.171,25€
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5.115,01€
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Custódia:
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147,60€
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Mais valia:
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1.027,50€
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567,47€
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Yield:
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3,87%
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Valores líquidos:
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Mais valia:
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1.282,55€
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Yield:
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4,28%
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Valores líquidos:
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Mais valia:
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2.712,70€
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Yield:
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4,52%
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Valores líquidos:
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Mais valia:
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14.153,90€
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Yield:
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4,72%
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Que alternativas tenho às obrigações?
Existem muitas alternativas ao investimento em obrigações mas escolher a que mais lhe convém irá depender do seu perfil de investidor e da quantidade de dinheiro que dispõe.
Se ficou interessado nas obrigações e no seu potencial de lucro, pondere investir apenas uma pequena quantia com o objectivo de aprender como funcionam na prática estes investimentos.
Se preferir, informe-se sobre os fundos de investimento sobre obrigações ou aqueles que tenham soluções mistas como por exemplo acções mais obrigações. Aqui os custos deverão ser menores, o risco será abatido já que estará distribuído e não necessitará de muitos conhecimentos nem de informação constante.
As soluções de investimento não acabam aqui. Se apenas agora começou a investir, pondere também usar o seu dinheiro noutro tipo de activos tais como abrir uma empresa, investir em imobiliário ou em acções. Dê uma vista de olhos nestes artigos:
- Descubra se está preparado para abrir uma empresa.
- Cinco perguntas a fazer ao comprar um imóvel para arrendar.
- As minhas primeiras regras para um investimento descansado na Bolsa.
Conclusões:
É sempre muito difícil saber qual é o melhor tipo de investimento a escolher já que cada caso é diferente. A responsabilidade é muito grande e estão várias coisas em jogo. O melhor mesmo é estar bem informado sobre aquilo que vai fazer.
No caso das obrigações, todo o cuidado é pouco mas está claro que este tipo de investimento é mais uma opção a ter em conta na sua luta pela liberdade financeira. Poderá fazer dinheiro desta forma e pode não ser pouco.
Se as coisas correrem bem, quanto mais dinheiro investir,mais poderá ganhar. Cada emissão é diferente. Os juros e as condições de cada também pelo que deverá esforçar-se por escolher o mais proveitoso.
Este é um tipo de investimento que não requer os maiores conhecimentos financeiros mas não deve ser tomado de ânimo leve. O seu dinheiro está em jogo. Já se, tem algum dinheiro disponível para investir e de que não precisa nos próximos anos pode obter uns retornos interessantes.
Vale a pena investir em obrigações se:
- Pretender diversificar o seu portfolio de investimento.
- Quer uma alternativa mais rentável que os depósitos a prazo.
- Quer uma alternativa à incerteza das acções.
- Pretender aumentar os seus activos passivos. O pagamento periódico de juros irá fazer bem ao seu um fluxo de caixa.
- For cliente e gostar do serviço da instituição que emitir as obrigações.
- Não gostar de surpresas: saberá à partida quanto irá ganhar.
Não vale a pena investir em obrigações se:
- Se é avesso a qualquer tipo de risco.
- Não perceber nada de investimentos e em particular deste tipo.
- Se tem pouco dinheiro para investir. Menos de 5.000€ pode não ser vantajoso.
- Não souber que obrigações escolher. Isso demonstra que não tem informação suficiente sobre as empresas e que não está pronto a investir.
- Está à espera de lucro rápido. Terá de esperar um par de anos ou mais para ver o seu investimento total ser pago.
- Precisar do dinheiro antes da maturidade das obrigações.
Advertência: a informação contida neste artigo não é exaustiva, não pretende de modo algum ser um incentivo ao investimento neste tipo de activo e todas as responsabilidades recaem no leitor caso este decida investir. Para maior segurança aconselha-se a consulta de um gestor financeiro.

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